Etnomatemática na Educação: Conceito, Prática e Importância
Introdução
Por muitos séculos, a matemática foi ensinada nas escolas sob uma ótica estritamente formal, abstrata e eurocêntrica, muitas vezes desconectada da realidade vivida pelos estudantes. Essa visão tradicional construiu o mito de que o conhecimento matemático é único, neutro e universal, pertencente apenas a uma elite acadêmica. No entanto, o desenvolvimento do campo da educacao matematica e etnomatematica revelou uma perspectiva profundamente diferente: a matemática é uma produção cultural, viva e diversificada, criada pelas sociedades humanas para responder às suas necessidades de sobrevivência, organização e explicação do mundo.
Entender o que e etnomatematica exige um olhar antropológico e pedagógico sobre o conhecimento humano. A etnomatematica na educacao surge como uma resposta crítica a essa descontextualização do ensino, propondo que os saberes culturais e matematica caminhem lado a lado nas salas de aula. Ao reconhecer o valor dos saberes populares na escola, os educadores abrem espaço para uma matematica inclusiva e um ensino contextualizado, capazes de resgatar a autoestima dos estudantes e promover uma aprendizagem verdadeiramente significativa. Neste artigo, exploraremos em profundidade a teoria da etnomatematica, a contribuição fundamental de Ubiratan D’Ambrosio e as melhores estratégias para aplicar a etnomatematica na pratica escolar.
História e Teoria da Etnomatemática: A Herança de Ubiratan D’Ambrosio
A historia da etnomatematica como campo formal de estudo começou a se consolidar na segunda metade do século XX. O grande precursor desse programa de pesquisa foi o matemático e educador brasileiro Ubiratan D’Ambrosio. A partir da década de 1970 e formalmente no Congresso Internacional de Educação Matemática (ICME-5) em 1984, D’Ambrosio systematizou o conceito, propondo um novo olhar para a intersecção entre antropologia e matematica.
Na visão dambrosiana, o conceito de dambrosio etnomatematica é explicado a partir de sua etimologia conceitual:
- Etno: Refere-se aos diversos ambientes culturais, sociais, raciais, tribos, grupos profissionais e comunidades em seus contextos naturais e urbanos.
- Matema: Refere-se aos modos de explicar, entender, ensinar, lidar e gerenciar a realidade.
- Ticas: Refere-se às artes, técnicas, modos e instrumentos desenvolvidos pelo ser humano ao longo do tempo.
Portanto, a relação entre etnomatematica e etnia não se limita apenas a grupos indígenas ou comunidades tradicionais, como muitos erroneamente supõem. Ela abrange as práticas matemáticas desenvolvidas por qualquer grupo cultural identificado, como pedreiros, feirantes, agricultores, artesãos, grupos urbanos e periferias. Trata-se do reconhecimento de que a relação entre sociedade e matematica é múltipla e multifacetada, fundamentando a pesquisa em etnomatematica no brasil.
O Conceito de Etnomatemática e sua Relação com a Cultura
O conceito de etnomatematica vai além de uma simples metodologia de ensino; trata-se de um programa de pesquisa em etnomatematica com dimensões epistemológicas, políticas e pedagógicas. A tese central é que toda cultura desenvolveu e continua desenvolvendo maneiras próprias de contar, medir, comparar, classificar, inferir e modelar o espaço e a quantidade.
A relação entre matematica e cultura evidencia que o conhecimento formal ensinado na escola é apenas uma das formas possíveis de matematizar o mundo — a forma europeia-ocidental. O ensino de matematica cultural busca descentralizar esse privilégio epistêmico, mostrando que o conhecimento popular possui rigor, lógica e utilidade social imensas. Quando a escola valoriza a diversidade cultural e matematica, ela promove o respeito mútuo e combate o preconceito velado que rotula certos grupos socioeconômicos como “incapazes” de aprender matemática.
Etnomatemática na Prática Escolar: Metodologias e Didática
Trazer a etnomatematica em sala de aula exige mudanças profundas na metodologia de ensino de matematica. O objetivo do professor não deve ser substituir o currículo formal pelo saber popular, mas sim estabelecer uma ponte de diálogo entre o saber cotidiano do aluno e a matemática escolar acadêmica.
A didatica da matematica cultural se apoia em investigar a realidade do estudante, compreender seus saberes prévios e utilizá-los como ponto de partida para a construção do conhecimento formal. Na etnomatematica educacao basica, o trabalho é estruturado a partir do aprendizado significativo, onde o estudante percebe a utilidade imediata e a relevância social dos conceitos abordados.
Abaixo, destacamos a aplicação da etnomatematica e interdisciplinaridade por meio da combinação com a investigação temática e o ensino por projetos:
- Pesquisa de Campo e Etnografia Escolar: Os alunos investigam como familiares ou membros da comunidade realizam cálculos, medições e estimativas no cotidiano.
- Problematização e Análise Crítica: Discussão em grupo sobre os métodos populares encontrados e comparação com as fórmulas acadêmicas.
- Formalização Conceitual: O professor conecta o saber prático às representações algébricas, geométricas e numéricas padrão do currículo.
- Devolutiva Social: Produção de materiais, intervenções ou soluções para a comunidade local com base nas conclusões da pesquisa.
Exemplos Práticos e Projetos de Etnomatemática
Para compreender como criar um plano de aula etnomatematica funcional, analise os seguintes projetos de etnomatematica desenvolvidos no contexto educacional brasileiro:
1. A Matemática da Mão de Obra e Construção Civil
Estudantes investigam com pedreiros e mestres de obras locais como é feito o esquadrejamento de uma parede usando o triângulo retângulo (regra do 3-4-5) e o uso do prumo e do nível de água. A partir dessa observação, o professor introduz formalmente o Teorema de Pitágoras e as relações trigonométricas, demonstrando que os trabalhadores utilizavam princípios da geometria euclidiana de forma intuitiva e extremamente eficaz.
2. Geometria das Rendas, Tecelagens e Arte Indígena
Com o auxílio do ensino contextualizado, investiga-se a simetria, os padrões de translação
Sobre o autor
Valdivino Alves de Sousa é Mestre em Educação pela Universidad Europea del Atlántico (Espanha), Licenciado e Bacharel em Matemática, graduado em Pedagogia, Ciências Contábeis, Direito e Psicologia (CRP 06/198683). É especialista em Educação Matemática Comparada, Psicopedagogia, Gestão da Segurança e Tecnologia da Informação e Terapia Cognitivo-Comportamental.
📧 Contato: valdivinosousa.mat@gmail.com


Facebook Comments