Introdução
A matemática costuma ser percebida no senso comum como uma ciência fria, puramente abstrata, neutra e desvinculada das realidades sociais. No entanto, quando observamos a história da humanidade e as práticas sociais cotidianas, percebemos que a necessidade de contar, medir, comparar, classificar, inferir e modelar é universal, manifestando-se de maneiras singulares em cada grupo humano. É do encontro vivo entre cultura e matemática que se consolida o campo de pesquisa e ação denominado etnomatemática.
Idealizada e sistematizada no Brasil pelo renomado educador e matemático Ubiratan D’Ambrosio, a teoria etnomatemática propõe uma verdadeira revolução epistemológica e didática. Em vez de impor a matemática escolar acadêmica como a única forma legítima de racionalidade, essa perspectiva reconhece e valoriza os saberes culturais e as práticas cotidianas desenvolvidas por comunidades indígenas, quilombolas, trabalhadores urbanos, artesãos, agricultores e pelos próprios estudantes no seu ambiente familiar.
Neste artigo produzido sob uma perspectiva acadêmica e docente, investigaremos a fundo o conceito de etnomatemática, sua fundamentação teórica, a articulação da etnomatemática e BNCC, além de apresentar etnomatemática exemplos práticos para transformar a sala de aula da Educação Básica em um espaço democrático de matemática inclusiva, criticidade e matemática e cidadania.
A Origem e o Conceito de Etnomatemática: A Herança de Ubiratan D’Ambrosio
Para compreender a dimensão da etnomatemática na educação básica, é indispensável analisar a desconstrução etimológica proposta por Ubiratan D’Ambrosio a partir dos anos 1970. O autor dividiu a palavra em três raízes gregas interligadas:
- Etnos: Refere-se ao contexto cultural e social, incluindo mitos, símbolos, linguagem, jargões, costumes, valores e códigos de conduta de um grupo específico.
- Mathema: Diz respeito às artes, técnicas ou maneiras de explicar, conhecer, entender, lidar, manejar e conviver com a realidade e a natureza.
- Ticas: Derivado de techne, refere-se aos modos, estilos, instrumentos e estratégias desenvolvidas pelos indivíduos para agir sobre o seu meio ambiente.
Em um etnomatemática resumo, o programa etnomatemática conceitua-se como as “artes ou técnicas de explicar, entender e conviver com a realidade dentro de contextos culturais próprios”. Com base na antropologia matemática e na socioepistemologia, compreende-se que não existe uma única matemática universal imutável, mas sim distintas manifestações do pensamento matemático gestadas pelas necessidades de sobrevivência e transcendência das sociedades humanas.
Etnomatemática e a BNCC: Valorização dos Saberes Locais no Currículo
A implementação das práticas pedagógicas voltadas à etnomatemática encontra amparo direto nas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O documento oficial enfatiza que a aprendizagem de matemática deve promover o desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais vinculadas à empatia, ao respeito à diversidade cultural na escola e ao uso do conhecimento em contextos reais.
Ao conectar etnomatemática e pluralidade cultural, a escola promove um ensino contextualizado que estimula o aluno a enxergar a matemática na vida cotidiana. Essa integração fortalece a transdisciplinaridade escolar, aproximando a matemática da História, da Geografia, das Artes e da Sociologia, permitindo a consolidação de uma verdadeira pedagogia cultural e humanizada.
Matemática Acadêmica vs. Etnomatemática: Diferenças e Complementaridade
No âmbito da didática da matemática, é crucial entender que o conhecimento matemático informal e o conhecimento acadêmico formal não são excludentes. Trata-se de saberes complementares com naturezas e propósitos próprios. A tabela abaixo sintetiza essas diferenças:
| Dimensão | Matemática Acadêmica / Escolar Tradicional | Etnomatemática / Saberes Tradicionais |
| Origem do Conhecimento | Desenvolvida em universidades, centros de pesquisa e livros didáticos. | Gestada na prática comunitária, no trabalho, na oralidade e na tradição. |
| Linguagem e Notação | Simbologia formalizada universalmente, regras sintáticas e demonstrações axiomáticas. | Estratégias de cálculo mental, linguagem corporal, vocabulário próprio e estimativas. |
| Foco Prático | Busca por abstração, modelos genéricos, rigor formal e generalização. | Resolução imediata de problemas reais, funcionais e do cotidiano do grupo. |
| Transmissão | Instrução formal, sistemas escolares e publicações científicas. | Observação, imitação, convivência intergeracional e prática continuada. |
Exemplos Práticos de Etnomatemática na Sala de Aula
A condução da etnomatemática na sala de aula exige que o professor atue como um pesquisador-mediador. Veja a seguir etnomatemática exemplos práticos aplicáveis ao ambiente escolar:
1. O Teorema de Pitágoras e a Construção Civil Informal
Mestres de obras e pedreiros frequentemente utilizam a técnica do “esquadro de 3, 4 e 5 metros” para garantir que o canto das fundações tenha exatamente 90 graus. Essa prática empírica aplica diretamente a relação do triângulo retângulo ($3^2 + 4^2 = 5^2$). Ao trazer esse exemplo para a aula de geometria, o professor valida a valorização dos saberes locais e conecta o saber popular ao rigor algébrico.
2. Geometria nos Frisos e Tramas da Cestaria Indígena e Quilombola
A confecção de cestos, peneiras e peças têxteis em comunidades tradicionais envolve simetrias de rotação, traslação e reflexão espacial refinadas. A investigação desses artefatos permite explorar conceitos de geometria plana, polígonos e transformações isométricas, promovendo o resgate das culturas populares e matemática.
3. Estratégias de Cálculo Mental no Comércio Popular
Trabalhadores autônomos e feirantes desenvolvem métodos ágeis de contagem e troco fundamentados na decomposição numérica e no arredondamento mental. Analisar esses procedimentos em sala de aula enriquece o ensino de aritmética fundamental e incentiva a investigação sobre metodologias ativas de ensino.
4. Etnomatemática no ENEM e exames nacionais
A abordagem da etnomatemática no enem é visível em questões que exploram escalas cartográficas, unidades de medida não convencionais (como a braça e a alqueire), rendimento produtivo agrícola e análise de gráficos socioeconômicos. Abordar esses conteúdos sob a ótica etnomatemática prepara melhor os alunos para exames contextuais.
Metodologias Ativas e Interdisciplinaridade no Ensino de Matemática
A união entre etnomatemática e interdisciplinaridade alinha-se perfeitamente com metodologias ativas, como a Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP) e a investigação etnocrítica. Propor aos estudantes que realizem entrevistas com artesãos, comerciantes ou agricultores da sua região transforma-os em agentes da própria aprendizagem.
Essa vivência amplia a pesquisa em etnomatemática desde a Educação Básica e renova a formação de professores, oferecendo ferramentas reais para lidar com turmas heterogêneas e geograficamente diversas.
Boas Práticas para Aplicação da Etnomatemática
Para garantir que o trabalho com o conhecimento tradicional tenha impacto pedagógico efetivo, o professor deve adotar as seguintes práticas:
- Escuta atenta e diagnóstico cultural: Identificar a realidade socioeconômica e cultural dos estudantes antes de elaborar os projetos.
- Construção de pontes conceituais: Partir do conhecimento informal da comunidade para ancorar e introduzir os conceitos formais da matemática acadêmica.
- Estímulo à investigação científica escolar: Incentivar os estudantes a registrarem e analisarem as práticas matemáticas presentes no seu entorno.
- Valorização da ancestralidade: Promover debates sobre a contribuição de matrizes africanas, indígenas e asiáticas para a história da matemática.
- Uso de recursos materiais e concretos: Utilizar maquetes, instrumentos de medida tradicionais, vídeos e entrevistas nas aulas.
Erros Comuns ao Trabalhar Etnomatemática na Escola
A aplicação inadequada da etnomatemática na educação básica pode enfraquecer o processo educativo. Evite os erros listados abaixo:
- Folclorização do saber: Tratar as práticas comunitárias apenas como curiosidades exotizadas, sem aprofundar os conceitos matemáticos nelas contidos.
- Abandono do saber acadêmico: Acreditar erroneamente que a valorização da etnomatemática anula a responsabilidade de ensinar a matemática formal e sua notação universal.
- Descontextualização forçada: Apresentar práticas culturais distantes da realidade dos alunos sem realizar a devida introdução ou pesquisa contextual
Sobre o autor
Valdivino Alves de Sousa é Mestre em Educação pela Universidad Europea del Atlántico (Espanha), Licenciado e Bacharel em Matemática, graduado em Pedagogia, Ciências Contábeis, Direito e Psicologia (CRP 06/198683). É especialista em Educação Matemática Comparada, Psicopedagogia, Gestão da Segurança e Tecnologia da Informação e Terapia Cognitivo-Comportamental.
📧 Contato: valdivinosousa.mat@gmail.com


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